Alejo Carpentier – E ópera é…

Alejo Carpentier – E ópera é…

O escritor cubano Alejo Carpentier (1904-1980), uma das vozes mais importantes da literatura sul-americana do século XX, foi um apaixonado melómano, amigo de grandes intérpretes e compositores. Em 1974 deu o título de Concerto barroco a uma das suas mais conhecidas obras. Para além disso, assinou ao longo da vida centenas de artigos sobre música  em diferentes jornais e revistas, alguns dos quais compilados por Eduardo Rincón num volume intitulado “Esse Musico Que Llevo Dentro”. A prosa que se segue é um excerto de um desses artigos – “El Prejudicio Antioperistico”  – publicado em Caracas, sem indicação de data, no jornal El Nacional.

A ópera, como género, é provavelmente a manifestação musical mais antiga e venerável da nossa cultura. Óperas, é bom não esquecer, foram as tragédias gregas, com as suas árias, os seus cantos, as suas antífonas. Óperas foram, de certo modo, os mistérios medievais, com os seus músicos e menestréis participantes na acção. E desde o Renascimento até aos nossos dias o drama lírico do Ocidente tem-se vindo a desenvolver constantemente, alcançando expressões tão prodigiosas como as de Wagner, de Debussy, de Alban Berg.

A ausência de “realismo” que se observa na ópera – esse falar cantando, esse actuar frente a uma orquestra, esse drama medido pela batuta de um maestro – parece-me um dos seus aspectos mais interessantes, porque corresponde a uma das concepções mais originais do homem. A ópera é a transposição da realidade para um plano apenas artístico, onde os sentimentos e as paixões se desenrolam num clima de absoluto lirismo. Não há cena de amor em todo o teatro universal que tenha conseguido a intensidade expressiva do dueto do II Acto de Tristão e Isolda. Há que ir  a Shakespeare ou a Calderón para conseguirmos encontrar cenas tão absolutamente antológicas como a meditação de Maria sobre a Bíblia no Wozzeck de Alban Berg.