As fadistas Eva Tetrazzini e Amália Rodrigues

O HILÁRIO

Augusto Hilário da Costa Alves nasceu a 7 de janeiro de 1864 em Viseu e aí morreu em 3 de abril de 1896. Vida curta, de apenas 32 anos, mas que deixou marcas, dado que os seus fados se tornaram conhecidos em todo o país, ficando um deles imortalizado como – precisamente – o Fado Hilário. Na Academia Coimbrã era conhecido como o “Rei da Alegria” e, sendo verdade (que o é!) que a thing of beauty is a joy forever, como nos ensinou Keats, não é de estranhar que o nome de Hilário ainda hoje se recorde. Uma verdadeira multidão acompanhou o seu funeral e numa carta de condolências remetida à mãe por colegas, dois dias após a sua morte, escrevia-se: “Está de lucto a mocidade portugueza!”

Nos seus fados, Hilário interpretou poemas de Guerra Junqueiro e António Nobre, entre outros, para além dos que ele próprio criou, tendo assim sido um precursor (de modo natural e orgânico, sem tal causar espasmos de maravilhamento) da utilização da grande poesia portuguesa em fado. Em 1979 a Câmara Municipal de Viseu atribuiu o seu nome a uma rua da cidade e descerrou uma lápide na casa onde nasceu.

A TETRAZZINI

Vem Hilário aqui à baila porque no livro O Real Theatro de S. Carlos de Lisboa de Fonseca Benevides encontro uma singela referência a um espectáculo dado na nossa sala em 25 de março de 1899 e protagonizado por Eva Tetrazzini, uma das mais amadas vozes do seu tempo. Foi depois de uma festa artística. Benevides conta:

Em 25 de março, festa artística do maestro Campanini, e despedida de Tetrazzini, representou-se: 1º, 3º e 4º actos da ópera Saffo, de Massenet. A orchestra tocou: Cavalcata da ópera Walkiria, de Wagner, Dança das Sylphides da Damnation de Faust, de Berlioz, Rêverie du soir, de Saint-Saëns, Dança d’Anita, da suite Peer Gyilt [sic], de Grieg; Morte de Isolda, da ópera Tristano e Isolda, de Wagner, por Tetrazzini; esta cantou ao piano uma romanza de Tosti, e dois fados, sendo um do Hilario. O precioso livro do Dr. Mário Moreau complementa a informação e especifica-nos que Eva Tetrazzini depois da Isolda cantou: “Se fosse”, de Quaranta; “Fado Hilário”; “Fado da farça José Palonço” e “Adeus a Lisboa”.

Nem quero pensar o que sucederia a uma cantora nos dias de hoje se depois da Morte de Isolda se lançasse alegremente a exercícios fadísticos! Esta Eva Tetrazzini que se tinha estreado em Florença em 1892 como Margarida do Fausto de Gounod era irmã de outra grande cantora (Luisa Tetrazzini) e casada com o maestro Cleofonte Campanini, o festejado acima referido. Cantou em São Carlos vários papeis em várias temporadas. Já no ano anterior se apresentara muito “solta” no nosso teatro – uma outra passagem do livro de Benevides revela-nos isso e prova-nos também a que ponto a cantora foi admirada em Lisboa.

Em 9 de março [1898] realizou-se a festa artística da dama Eva Tetrazzini; deu-se a ópera Bohème, de Puccini; no fim cantou Tetrazzini os seguintes trechos: Santa Lucia, El Paletó, em hespanhol, e a canção napolitana Funicoli-Funicolá, acompanhada de coros. Teve muitos aplausos, flores e dádivas. Foi conduzida a sua casa, no Chiado, por cima do Club-Turf, na carruagem do conde de Fontalva, acompanhada por uma marcha aux flambeaux e música.

Já agora, ainda existe um Club Turf, na Rua Garrett, nº 74, 1º. Será que é o mesmo? E, sendo assim, será que Tetrazzini vivia no 2º andar?

A RODRIGUES

Hilário não voltaria a ser cantado no nosso teatro, que eu saiba, mas quase um século depois de Eva Tetrazzini apresentou-se em São Carlos uma outra famosíssima garganta, a de Amália Rodrigues. A cantora apresentou-se em 2 de março de 1990, nos estertores da sua carreira e na fase final da sua vida. O Fado Hilário, esse, já não fazia parte do repertório de Amália.

Irmãos, no fundo, o fado e a ópera. Qual a obra lírica que se preze que não descreve os “fados” dos seus personagens (e com eles os nossos) ou em que não se veicule a mensagem de que tudo é amor sem guarida, / Dor, sentimento, alegria?

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