A sueca centenária

A sueca centenária

Birgit Nilsson, sueca, nasceu a 17 de maio de 1918, há um século e poucos dias! Foi uma das mais extraordinárias cantoras do século XX e da História e reinou absolutamente num repertório desejado por muitas e vedado a quase todas. A sua voz de soprano dramático, a ductilidade da mesma, que conseguia ser dura e cortante como o diamante ou impregnada de tremenda doçura, a musicalidade a toda a prova, as capacidades dramáticas inigualáveis, fizeram dela uma das mais poderosas e fiéis tradutoras do universo demencial do soprano dramático. Cantou Isolde, Turandot, Brünnhilde(s), Salomé, Elektra, Lady Macbeth, Senta, Minnie, Tosca, Aida… em todos os grandes teatros de ópera do mundo, sempre no meio das mais fervorosas ovações. Quem viu e ouviu (ao vivo, ou em gravação vídeo) a sua interpretação da Elektra straussiana sabe o que é ópera na sua essência mais alta e nobre e não mais poderá esquecer a explosão vocal e emotiva do reconhecimento — “Orest!” — bem como o intenso lirismo que se segue.

Fez os seus estudos na Academia Real de Musica da Suécia, onde um dos seus professores foi Joseph Hislop, e em 1946 estreou-se na Ópera Real de Estocolmo com Agathe de Der Freischütz de Weber. Nilsson ficaria para sempre ligada a esta instituição sueca, onde cantou quase todo o repertório que a tornou lendária, mas também a Donna Anna mozartiana (ela disse-me uma vez: “Eu adorava Mozart, mas ele não gostava da minha voz!”) , a Lisa em A Dama de Espadas de Tchaikovsky, a Marschallin straussiana. Manteve-se sempre ligada ao seu país e cantou regularmente na Ópera Real, não obstante os triunfos em Bayreuth, na Staatsoper de Viena, em Covent Garden, no Met, em San Francisco, etc.

Este “et coetera” inclui Lisboa e o Teatro de São Carlos, onde ela cantou em 1958, 1959 e 1976: Brünnhilde em Die Walküre, Isolde em Tristan und Isolde e Brünnhilde em Götterdämmerung, respetivamente. Quem, como eu, esteve nas récitas de 1976 ficou com a sensação que o teatro era pequeno demais para a produção de som de Nilsson. Recordo-me bem de lhe ter falado no seu camarim, o local onde lhe pedi a foto que ilustra este artigo. Foi paixão que durou até hoje.

Depois, falei com ela — radiofonicamente — várias vezes. Uma dessas conversas versou precisamente sobre o nosso teatro e nela Birgit Nilsson recordou ter cá cantado. Curiosamente, a sua memória levou-a às representações da década de 50, mais do que às de 1976, bem mais próximas no tempo. Recordo que até “assuecou” o nome do Dr. José Figueiredo, o diretor do São Carlos na altura, que lhe ofereceu uma salva de prata. (Ver neste blogue artigo “Birgit Nilsson – Are You Ready?”, na Categoria “Astronomias”).

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