Cantores wagnerianos e fossos de orquestra

Cantores wagnerianos e fossos de orquestra

Vsevolod Emilevich Meyerhold (1874-1940), russo nascido alemão, foi uma das mais importantes personalidades teatrais na primeira metade do século XX. Foi co-fundador do Teatro Dramático de Moscovo e depois de o abandonar lançou-se em numerosos projectos como encenador e actor, tornando-se uma das mais inovadoras vozes nos teatros imperiais. O seu livro De Teatro é publicado em 1913.

O texto que propomos continua a ser, passado mais de um século (e acreditando na visão de Meyerhold), um desafio para os arquitetos.

Não compreendo porque mantêm ainda nos teatros de ópera um anacronismo tão absurdo como a disposição do fosso de orquestra diante da cena. Isso obriga os cantores a forçar a voz e impede-os de matizar os agudos, pois têm muita dificuldade em abrir caminho através da poderosa cortina musical tecida pela orquestra. Em Bayreuth, a fossa é muito mais profunda do que nos nossos teatros e o efeito obtido é enorme. Dando às suas partituras quatro ou seis indicações de “nuances” de “forte”, Wagner encarava uma tal disposição dos músicos. Pelo contrário, os nossos chefes de orquestra agarram-se cegamente às suas indicações em condições diferentes: eles permitem aos seus músicos empregarem todas as suas forças e daí resulta uma insuportável algazarra. Como detesto algazarra em ópera, deixei de ir ouvir Wagner nos nossos teatros. No antigo Teatro Mariinsky, os cantores esganiçavam-se até arruinar as suas cordas vocais, a tal ponto que Erchov teve de reformar-se antecipadamente.

O domínio da ópera reclama numerosas reformas. É indispensável que os arquitectos encontrem um outro lugar para a orquestra, e que os cantores estudem a sua parte de maneira a poderem tirar dos olhos o chefe de orquestra. Prometi a mim próprio, se voltar a montar uma ópera, multiplicar os meus esforços para colocar a orquestra noutro lugar.

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