Entre primas

Entre primas

Da Rainha D. Maria II de Portugal para a Rainha Vitória de Inglaterra:

 

Lisbonne, 1er Decembre 1852

Maintenant nous avons ici comme première chanteuse Mme. Castellan qui a été a Londres et qui pretend que tu t’est même promenée avec elle a Osborne. Tu sais que ces Dames doivent être ou avoir eté l’amie de quelqu’un de Prince ou Princesse. J’avoue quele chante bien mais je trouve qu’a la longue ses roulades sans fin ennuyent et fatiguent le monde Dieu m’en preserve de rien direi ci car on est d’un enthousiasme délirant por elle.

 

(Lisboa, 1 de Dezembro de 1852

Temos agora aqui como primeira cantora Mme. Castellan, que esteve em Londres e que espalha que tu te passeaste com ela em Osborne. Sabes como estas Damas têm a necessidade de ser ou já ter sido amigas de algum Príncipe ou Princesa. Confesso que ela canta bem, mas com o tempo acho que as suas “roulades” sem fim me aborrecem e fatigam toda a gente. Deus me livre de dizer alguma coisa, porque por aqui todos nutrem um entusiasmo delirante por ela.)

 

Novos Documentos dos Arquivos de Windsor – apresentação e estudo de Ruben Andresen Leitão (do Instituto de Coimbra). Coimbra MCMLVIII

 

 

A nossa rainha numa curiosa carta à sua prima Vitória falando das acrobacias vocais de uma cantora!

Folheando-se o precioso livro O Real Theatro de S. Carlos de Lisboa de Fonseca Benevides, encontro a seguinte apreciação da mesma cantora por parte do melómano português: “Na companhia lyrica d’esta ephoca havia bons artistas. Anaide Castellan   não era uma celebridade, mas tinha muito merecimento; a sua voz era extensa e de timbre agradavel, posto que muito desegual; cantava com bastante correcção e gosto musical; sobresaia na variedade e bem acabado das cadencias. Fóra de Portugal a Castellan teve pouco êxito na sua carreira; esteve na Grande Opera de Paris; para ella escreveu Mayerbeer o ingrato papel de Bertha no Propheta; a artista não conseguiu aí brilhar; o mesmo tem geralmente succedido a todas as cantoras que teem desempenhado aquella parte”.

Philip Robinson parece ter consultado Benevides dado que em The Grove Book of Opera Singers relata que os críticos da  época de Castellan lhe reconheciam uma voz particularmente extensa e ágil, homogénea em todos os registos, mas apontavam-lhe certas imperfeições na afinação e o frequente uso de ornamentações ambiciosas demais para os seus meios e inapropriadas no plano dramático.

Castellan cantou no nosso teatro em três temporadas seguidas, tendo-se estreado em outubro e 1852 com a Amina de La sonnambula e despedido com  a Leonora de Il trovatore em 28 de Maio de 1855.

  1. Maria II ouviu-a seguramente em Paola o l’Orfana Tradita de Flotow, em 1852, em Maria Tudor de Pacini, em 1853 e em La sonnambula de Bellini, em 1854, pois foram estas as óperas cantadas a 29 de outubro desses anos, dias em que em São Carlos houve Récitas de Gala comemorativas do  Aniversário de D. FernandoII, o Rei Consorte.

Assinale-se que Castellan foi a primeiríssima intérprete em Portugal da ópera Il trovatore de Verdi, a 17 de abril de 1854. A sua foi, pois, a voz que apresentou a Lisboa a ária “D’amor sull’ali rosee”, um dos emblemas do romantismo.

Um destino de invejar, portanto!