Estrelas em casa

Thomaz de Mello Breyner (1866-1933) usou o título de 4.° Conde de Mafra até morrer, bem depois da implantação da República. Nasceu junto ao Castelo de São Jorge, estudou Medicina em Lisboa, especializou-se em França e foi nomeado médico da Real Câmara por D. Carlos I. Nessa função, acompanhou a Rainha D. Amélia numa viagem a Paris, em 1894, e a Rainha D. Maria Pia a Itália, em 1901. Entre 1906 e 1907 foi deputado. Teve colaboração em publicações periódicas como a Acção realista (1924-1926) e o jornal humorístico O Thalassa (1913-1915).

Deixou escritas umas curiosas e recheadas Memórias que a páginas tantas nos oferecem uma visão pessoal do ambiente que se vivia no interior de São Carlos e nos permitem tomar conhecimento do que extravasava do teatro para os salões da alta sociedade – através dos artistas contratados, por exemplo.

“Em 14 de março d’este mesmo anno de 1883 deu-se em Lisbôa um acontecimento musical: representou-se pela 1ª vez uma opera de Ricardo Wagner, o Lohengrin.

Esta e outras composições do genial compositor alemão tinham pouco tempo antes sido assobiadas em França pelos patriotas, quer na Opera quer em concertos. E durou bastante tempo esse odio, porque em Setembro de 1901 ainda eu assisti em Paris a tumultos, porque na Academia Nacional de Musica, ou fosse na Grande Opera, se poz em scena o mesmo Lohengrin. Lembro-me bem de que, apezar dos motins de rua, a representação foi até ao fim graças á energia de Constant, então Ministro do Interior.

Quizeram por cá macaquear os parisienses. Na platea o grupo d’aquelles entendedores que costumavam fazer crítica com os pés, em vez de a fazerem com a cabeça, nem pateada deram, davam só gargalhadas! Uma vergonha.

Os interpretes principaes do Lohengrin foram n’esse anno os seguintes:

Elsa – a formosa e famosa De Reszke.

Ortruda – a não menos famosa contralto Pasqua.

Lohengrin – o tenor Barbacini.

Telramondo – o barítono Gottardo Aldighieri.

O Maestro era um hespanhol chamado Dalmau de primeira ordem.

Conheci pessoalmente De Reszke e ouvi-a a cantar a aria das joias em casa do Ministro de França que era n’esse tempo Monsieur de Laboulaye. Tinha uma linda e formidável voz.

Tambem conheci o Aldighieri, homenzarrão ainda novo e de cara sempre alegre. Usava bigode e pera e guedelha d’artista.

Visitou meu Pae para lhe agradecer uma recomendação a El-Rei. Dias depois voltou a nossa casa e cantou acompanhado pelo notável professor Thimoteo da Silveira, educado em Paris.

Cantou uma aria do D. João, outra do Barbeiro de Sevilha e ainda uma outra da Força do Destino. Cantou esta com violência, gesticulando como se estivesse no palco, batendo com os pés no chão. Tremeram as vidraças e alarmou-se a criadagem. (…) O artista também versejava e para celebrar a caridade de D. Maria Pia de Saboya fez um soneto intitulado Marie due volte pia. Aldighieri teve fama mundial e veio cá mais d’um anno. Foi popular entre nós por cantar bem, por ser amavel e divertido.

Até houve uma scena cómica chamada Aldighieri Junior representada pelo engraçadíssimo actor Valle.”

— Memorias do Professor Thomaz de Mello Breyner, 4º Conde de Mafra — 1880-1883. Lisboa, MCMXXXIV.

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