Felicidade de inspiração

Felicidade de inspiração

Na Récita de Gala em que a 30 de junho de 1993 se festejou os 200 anos da inauguração do Teatro Nacional de São Carlos (direção musical de Álvaro Cassuto e participação da Orquestra Sinfónica Portuguesa, do Coro do Teatro Nacional de São Carlos, do soprano Elsa Saque e do baixo Georgi Seleznev), cantou-se, entre muitas outras obras, o Prólogo da ópera Mefistofele de Arrigo Boito.

Nos seus Souvenirs o compositor francês Camille Saint-Saens (que esteve várias vezes em São Carlos), deixou-nos em 1893 um texto intitulado « Docteur à Cambridge » do qual se retira a seguinte apreciação ao referido Prólogo de Boito. Recorde-se que a ópera Mefistofele se estreara em 1868 no Scala de Milão, tendo sofrido posteriormente algumas revisões.

Eis o texto de Saint-Säens :

 

O prólogo de Mefistofele, que tenho vindo há já muito tempo a propôr aos nossos promotores de concertos, deveria estar na memória de todos os que amam a música. Perdoar-me-á o autor se eu afirmar que este trecho maravilhoso, escrito para o teatro, me parece ficar muito melhor fora dele ? Representar em cena uma nebulosa atrás da qual se escondem a falanges celestes, fazer ouvir as sete trombetas e os sete trovões do Apocalipse, não será exceder os recursos ? A imaginação, por si só, pode criar essas cenas ; para além do mais, consegue-se nos concertos efeitos de sonoridade que não são possíveis no teatro. É por estas razões que sempre lamentei o facto de as nossas sociedades musicais não fazerem conhecer ao público esta obra espantosa à qual poderiam dar todo o esplendor desejado ; essa obra que pela sua originalidade, pela sua audácia, pela felicidade de inspiração, é um dos milagres da música moderna.

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