John Gielgud e Ópera

John Gielgud e Ópera

John Gielgud, aliás, Sir Arthur John Gielgud (1904 –2000), com uma prodigiosa carreira teatral e cinematográfica que se estendeu por oito décadas, não necessita de apresentações.

Confessou que o pai o levava a concertos, para seu deleite, e facto é que a música entrou cedo na sua carreira de encenador Em 1940 – com 36 anos – assinou uma produção de The Beggars’s Opera que foi apresentada no Festival de Glyndebourne. Em 1957 apresentou em Covent Garden uma encenação de Les Troyens de Berlioz. No mesmo Covent Garden encenou em 1961 a estreia londrina de A Midsummer Night’s Dream de Benjamin Britten. Enfim, nos finais da década de 60 encenou ainda o Don Giovanni de Mozart no Coliseum de Londres.

Publicou vários livros sobre a sua vida e sobre a sua carreira. Nas suas Cartas, porém, encontramos deliciosas referências a ópera. “Pesquemos” algumas:

Galli-Curci apareceu uma destas noites – uma mulher medonha, mas com enorme magnetismo pessoal e extrema simpatia.

(Para a mãe: 27 Dezembro 1937, Nova-Iorque)

John Gieldgud, 1937


Lotte Lehmann cantou lindamente no domingo passado

(Para a mãe: 21 Fevereiro 1947, Boston)

Fui ao Met ouvir Marian Anderson, a cantora negra. A sala estava apinhada com grande número de negros, obviamente. Ela e Paul Robeson são os principais cantores na América. Devo dizer que a extensão e a personalidade dela são impressionantes. Cantou Handel, Massenet, Schubert, Velhas Canções Inglesas, Peter Warlock e no fim alguns espirituais, apenas acompanhada ao piano, e controlou uma audiência enorme sem qualquer sinal de esforço e com uma grande beleza de estilo e de dicção. Apenas o seu francês não é bom, embora eu julgue que ela tenha estudado principalmente em Paris. Gostei muito do concerto.

(Para a mãe: 9 Abril 1947, Londres)

Vi uma fabulosa Lucia [di Lammermoor] em Covent Garden com uma sensacional Joan Sutherland. [Tullio] Serafin na orquestra – uma querida bola de fogo com 80 anos. Maravilhosos cenários e figurinos (e luzes) de Zeffirelli, um discípulo de Visconti, que também encena. Noite excitante.

(Para Hugh Wheeler: 27 Fevereiro 1959, Londres)

Fomos a Glyndebourne. Falstaff. Que obra maravilhosa!

(Para Hugh Wheeler: 21 Julho 1960, Londres)

Chateámo-nos imenso na Aida* de ontem – uma incrivelmente vulgar nova (!!) produção com bailados de Katherine Dunham. 35 dólares o bilhete e uma audiência tenebrosa.

Leontyne Price canta lindamente, mas atua como uma empregada de bar servindo bebidas a cowboys!

(Para Paul Anstee: 18 Janeiro 1965, Nova-Iorque)

* Referência a representação da ópera Aida de Verdi no Met de Nova-Iorque, em Janeiro de 1965. Aida, Amnéris e Radamés eram Leontyne Price, Irene Dalis e Richard Tucker. Maestro era William Steinberg. Encenação de Nathaniel Merrill e Cenografia de Robert O’Hearn.

Por fim, uma história divertida contada por Gielgud:

Maravilhosa história de Cecil Beaton. Na estreia da sua Turandot **– para a qual criara um esquema de cores meticulosamente graduado – ele vê subitamente, para seu horror, antes de subir o pano, uma rapariga do coro vestida de laranja brilhante, um figurino que ele desenhara para uma cena do último acto. Correu então até à entrada do palco e conseguiu que o diretor de cena a retirasse. Então, arrancou à rapariga, nos bastidores, o vestido ofensor e regressou ao seu lugar, um pouco ofegante. No intervalo perguntou a Rudolf Bing como achava que estava a correr o espetáculo. “Fantasticamente!”, respondeu Bing. “Exceto o pequeno pormenor de que todo o coro entrou em paralisação e de que o pano não vai subir de novo até que tu vás aos camarins pedir desculpas pessoalmente”. O que ele teve de fazer imediatamente.

(Para Paul Anstee: 12 Março 1961, Filadélfia)

** Referência às representações da ópera Turandot de Puccini no Met de Nova-Iorque, em 1961: Cecil Beaton assinava os cenários e figurinos; Turandot e Calaf eram Birgit Nilsson e Franco Corelli.

 

 

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