O Parsifal de 1980

O Parsifal de 1980

Em 1980 Lisboa teve a sorte enorme de acolher uma encenação de Wolf-Siegried Wagner: foi o primeiro Parsifal da minha vida. E nessa encenação, como que para ficar perfeita a correspondência entre o elenco das figuras wagnerianas e o elenco das figuras da minha família, a minha irmã Catarina estreou-se no palco de São Carlos no papel dançante de Donzela-Flor (Blumenmädchen) — por deliciosa coincidência também o papel, embora em versão cantante, com que a Schwarzkopf iniciara a sua carreira.

Graças ao facto de a Catarina entrar no Parsifal, tive oportunidade de assistir a alguns ensaios de palco e ao ensaio geral. Depois fui às récitas todas, para as quais a minha mesada só permitiu a compra de bilhetes de peão, pelo que assisti às quatro horas de música em  pé; e fui, ainda, à récita final no Coliseu, sentado (que alívio!) na Geral. Quando, depois de tudo isto, soou pela última vez o acorde final de lá bemol maior, desmoronou-se-me o mundo. Estava viciado e acabara-se-me a droga. Por sorte sairia depois uma gravação com os mesmos protagonistas da encenação lisboeta de Wolf-Siegfried (conhecido no meio operático pela alcunha de “Wummi”): a freudiana Dunja Vejzovic no papel de Kundry, a Pecadora; e o glamoroso Peter Hofmann no papel de Parsifal – mais sexy intérprete do herói casto por excelência seria inimaginável.

O Parsifal na encenação do filho de Wieland Wagner foi até hoje a melhor experiência wagneriana em São Carlos, embora não me possa esquecer da grande emoção que foi ouvir Birgit Nilsson no Crepúsculo dos Deuses de 1976 ou Waltraud Meier no Lohengrin de 1989. Cheio de vontade de reviver o enlevo do Parsifal, comprei em 1991 um bilhete de avião para ouvir uma récita em Munique, no próprio domingo de Páscoa. Mas os deuses não nos dão as mesmas coisas duas vezes e o efeito cénico não voltou a repetir-se. A música, essa continua a exercer a sua magia e continua a ir até ao fundo da alma, num processo quase platónico de reminiscência. Como escreveu Marguerite Duras em A Vida Material, “eu reconhecia a música de Richard Wagner que não conhecia”.

Poucas semanas antes de morrer, a minha mãe disse-me:

– Quando eu fiz vinte e um anos, a Renata perguntou-me se eu preferia um presente de anos a sério ou um bilhete de peão para o Parsifal no São Carlos.

– O que é que a mãe escolheu?

– O peão para o Parsifal, claro.

Certas coisas passam mesmo de pais para filhos.

 

FREDERICO LOURENÇO: “Wagnerianismo”, in Amar Não Acaba.