Pontes

Pontes

Agustina Bessa-Luís, estando eu em São Petersburgo emitindo o programa radiofónico “Ritornello”, acedeu pronta e simpaticamente a um pedido de entrevista. No decorrer da mesma, disse-me coisas que achei perturbadoras no momento e que me poriam a pensar pela vida fora, até hoje. Fizeram-me, por exemplo, compreender muito melhor a obra de Shostakovich.

Passo a transcrever as palavras da escritora:

“Comecei a ler os russos muito cedo, era uma menina ainda — foi a literatura que mais me impressionou e que mais me tornou fraterna, posso dizer, não só com o país como com a alma russa. Eu acho que o russo tem qualquer coisa que se identifica com o português. No aspeto negativo, a preguiça, por exemplo: a tradicional preguiça que é portuguesa (e dizem que também espanhola, mas eu não noto isso tanto) e a preguiça russa. Além disso, há um sentido místico, que não é detetável no português, mas existe, e no russo existe de uma maneira extraordinária. Tudo isto se vê em todos, todos os escritores russos, menos talvez em Gógol, porque Gógol, com quem eu me identifico plenamente, é um escritor que não leva a sério nem ele próprio, nem a vida, nem nada que o envolve, de maneira que tem situações hilariantes que ao mesmo tempo são profundamente trágicas.”

Curiosamente, em São Carlos subia à cena, precisamente nesse verão de 2006 em que decorria esta entrevista, uma produção da ópera O Nariz de Shostakovich, baseada no conto satírico O Nariz (1836) de Nikolai Gógol.

Recentemente, veio uma “resposta” russa, no recente novo trabalho da pianista Elisabeth Leonskaya, que se tem apresentado com regularidade na Gulbenkian Música. Gravou ela um CD cujo título é …“Saudade”. O conceito subjacente ao trabalho não tem base programática de espécie alguma, provém apenas de um estado de alma, próxima da melancolia e magnificada pela distância — de tempo ou espaço.

Para traduzir musicalmente esta saudade, Leonskaya escolheu a música de Tchaikovsky (Sonata em Sol Maior, Op 37 – Grand Sonata), Shostakovich (Sonata No 2 em Si menor, Op 61) e Rachmaninov (Prélude, Op. 3 No 2 em Dó sustenido menor, Prelúdio Op. 32 No 12 em Sol sustenido menor, Prelúdio Op. 23 No 6, em Mi bemol Maior e Élégie Op. 3 No 1 em Mi bemol menor), compositores que a acompanharam durante toda a vida e carreira.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *