Renoir cantava!

Renoir cantava!

Ele era muito seguro no solfejo e possuía uma bela voz de barítono ligeiro. Os seus professores,  não querendo desperdiçar um tal dom do Céu, fizeram com que fosse aceite no célebre coral da igreja de Saint-Eustache, cujo maestro era um jovem compositor desconhecido chamado Charles Gounod. (…)

Quem será este aluno do jovem Gounod?

Continuemos… 

Gounod teve uma espécie de paixão pelo meu pai –  deu-lhe lições particulares, ensinou-lhe composição musical e fê-lo cantar solos. Quando me contava esse período da sua vida, eu sentia Renoir partir em imaginação para a velha igreja.

Quem escreve é Jean Renoir, o célebre realizador de cinema francês. Ele fala do seu pai, o ainda mais célebre pintor Pierre-Auguste Renoir, cujas musicalidade e vocalidade iam fazendo com que quase tivéssemos perdido um dos maiores pintores da humanidade.

Isso, é claro, se ele o tivesse deixado:

Gounod chegou a ir a casa dos pais de Renoir para lhes dizer que daria aulas de graça ao miúdo e que o faria ingressar no coro da Opéra. Renoir não aceitou; ele adivinhava que por detrás da fachada de felicidade da profissão de actor estão escondidas grandes forças destruidoras e que o facto de sairmos de nós para nos transformarmos em Don Juan ou em Fígaro é uma ginástica espiritual para a qual ele não estava talhado.

Tradução de excertos do livro Pierre-Auguste Renoir, mon père, uma tentativa de biografia do pintor pelo filho cineasta. Aí, para além de inúmeras outras revelações (entre as quais um ódio visceral à luz eléctrica), Jean Renoir conta uma ida de seu pai à ópera:

Gounod deu ao meu pai bilhetes para a Opéra, um camarote para toda a família. Não era ainda a Grand Opéra de Garnier … “esse brioche intragável” … mas um agradável edifício à italiana todo em madeira e com camarotes  de que podemos ter uma ideia visitando o La fenice em Veneza, Hoje o teatro é um “exercício cultural”. Os arquitectos estudaram acústica, um bom pretexto para superfícies e paredes geométricas. Os italianos conhecem instintivamente as leis do som, sem as saber formular. Nos teatros deles ouvia-se tudo. Um suspiro da “prima donna” agitava-nos. E os vermelhos e os dourados, e as Vénus , os Cupidos, as Musas de madeira pintada!

Dava-se a Lucia di Lammermoor. Os cantores ignoravam ainda o estilo “realista” e vinham cantar à frente, perto do público. Mesmo para declarar a sua paixão ao soprano o tenor ajoelhava-se voltando-lhe as costas e estendia os braços para as cadeiras da plateia. Os Renoir estavam maravilhados, o meu pai nas nuvens.

A ópera era, pois, a Lucia di Lammermoor. A ela regressaremos, dado que a mesma entrou na história da literatura pelas penas de Flaubert e de Júlio Diniz. Pelo menos!